16/10/2007
A passagem de Os Sertões no Rio de Janeiro mexeu com os cariocas. Teve quem vaiasse ‘A Terra’, mas a maioria, como era de se esperar, compartilhou a festa dionisíaca comandada por José Celso Martinez Corrêa. Veja, abaixo, matéria do jornalista Sérgio Maggio publicada no jornal Correio Braziliense de 16 de outubro.
Domínio do teatro
No rio, Os sertões, do Oficina, e BR-3, do Vertigem, misturam palco e platéia e põem o Brasil maculado pelo homem na ordem do dia RIO DE JANEIRO – Havia mais de cinco horas que intérpretes e espectadores formavam um só corpo na encenação de A luta 1 (uma das cinco partes de Os sertões, do Teatro Oficina), quando o diretor José Celso Martinez Corrêa decretou:
– Aqui, o público é o Olimpo de Dionísio! Agora, nós aplaudimos vocês. Vamos trocar de posição. Nós subimos as arquibancadas, vocês descem ao chão.
Havia mais de três horas que outra platéia tinha mergulhado no espetáculo BR-3, do Teatro da Vertigem. Cento e dois espectadores trocaram a estática posição observadora da poltrona em terra firme para navegar sobre as águas da Baía de Guanabara. Emoldurados pelo cenário natural e degradado, eles testemunharam a epopéia de uma família, que começou na construção de Brasília, em 1959, e extinguiu-se em Brasiléia, no Acre, 17 anos depois.
– Obrigado por embarcar no nosso sonho, emociona-se o ator Sérgio Siviero.
No fim de semana, o teatro governou o Rio. A oitava edição do riocenacontemporânea pôs a capital fluminense sob o jugo de uma arte cada vez mais sem limites, formatos ou leis. De gerações extremas, os diretores José Celso Martinez Corrêa (Oficina) e Antonio Araújo (Vertigem) foram os líderes desse império efêmero, que se ergue por algumas horas, desfaz-se em lembranças ao fim do espetáculo e segue na memória de quem presenciou.
– Depois de uma experiência dessas, não dá mais para dizer que eu sou a mesma pessoa, confessa Tatiana Teixeira, que veio de São Paulo (onde BR-3 foi encenada no Tietê).
Terreiro de fertilidade José Celso Martinez Corrêa está em estado de graça. Os sertões chegou ao Rio depois de passar por Salvador e Recife. Na capital fluminense, José Celso exercita o teatro estágio e orgiástico, que funde os egos num só, como se todos pertencessem à multidão. Na última sexta, ao final de O homem 2, público e atores desembocaram na rua, numa roda com gente vestida e pelada. No sábado, o palco virou terreiro sagrado com todos dançando integrados, um a um.
Na pele do beato Antônio Conselheiro, o ator e diretor reverenciava o percussionista do grupo que se deitava ao chão, com o tambor de crioula entre as pernas. Pediu para que os espectadores se agachassem. Foi prontamente atendido. A luta 1 (parte conferida pelo Correio em sua hora final, após a chegada de BR-3) é simultaneamente tocante e cruel. O sangue derramado na barbárie de Canudos chega aos olhos do espectador fincado com o presente cortado pelas guerras. O Teatro Oficina expõe a natureza insana da batalha ao mesmo instante em que as situa no tempo-espaço histórico.
São cenas fortes, como a do empalamento do coronel Tamarindo, ou da degola de soldados capturados. Captadas por duas câmeras, as imagens de atores e platéia são editadas em tempo real e jogadas num telão, que interage ainda com uma banda ao vivo e uma sonoplastia intensa. Não há limites entre espaço cênico e platéia. Por vezes, os atores se entremeiam pelas arquibancadas. Por vezes, os espectadores descem e entram em cena, confraternizando-se com os seguidores do Conselheiro. Patrocinada pela Petrobras, a temporada de Os sertões lamentavelmente não incluiu Brasília.
Poeira de Brasília Tatiana era um dos espectadores que conseguiram ver BR-3, na noite de sábado. Havia até quatro listas de espera. A informação da produtora consolou os diretores brasilienses Francis Wilker e Bárbara Tavares, que acompanharam o ensaio do Vertigem, mas queriam ver o espetáculo sem as interrupções e retomadas de cena. Dois ônibus e alguns táxis partiram da zona portuária para o encontro da balsa (de 28m x 6m, construída especialmente para a temporada carioca). Lá, a pastora Evangelista anunciava o comando da igreja, que um dia foi cinema.
– Os filmes continuam a passar na minha cabeça. Vejam: ‘Jesus é mais alvo que a neve’ (dizia o letreiro luminoso, na entrada da balsa). Vamos, entrem!
A embarcação saiu de um dos pontos mais poluídos da Baía de Guanabara. O cheiro era de água morta, em cuja superfície de cor preta só boiavam embalagens de plástico (sacos e garrafas pet). Contornando navios gigantescos, a pequena embarcação liberou as cortinas laterais e o público ficou diante de um dos vãos da Ponte Rio-Niterói. No andaime gigante, trabalhadores soldavam e carregavam ferros. Uma mulher, Jovelina, cortava o mar em outro barquinho. Aflita, perguntou:
– É aqui que é o Congresso?
– Não, o Congresso ainda não foi construído, avisa um operário.
Brasília, sonho que toma forma no canteiro de obras, é o ponto de partida de BR-3. Jovelina estava à cata do marido, que veio, como milhares de brasileiros, erguer a nova capital da República. Seguiu então para a Novacap, esbarrou na burocracia do poder público e até ouviu uma carta ufanista de JK. No entanto, do desaparecido, só encontrou a mala. Os barcos se afastam (são cinco os que ladeiam a balsa de passageiros) e escuta-se um vendedor a gritar:
– Poeira de Brasília engarrafada. Levem de lembrança poeira de Brasília.
Jovelina pegou um barco de nordestinos. Eles chegam para a construção. É uma das cenas mais comoventes do espetáculo. Todos em silêncio, com a esperança no olhar, e prontos para levantar a nova capital de vias largas. Vão morar na Cidade Provisória até que o Plano Piloto os abrigue, quando estiver inaugurado. Em alguns segundos, BR-3 mostrou que a história não foi assim. O sonho dos candangos não cabia dentro dos que idealizaram Brasília. O barco some na noite e Jovelina segue para uma saga que termina onde o Brasil acaba, em Brasiléia. Até lá, será engolfada pelo tráfico de drogas em Brazilândia (SP).
– Trabalhamos os três ‘brasis’ que, apesar da distância geográfica entre essas cidades, têm pontos em comuns e dicotomias, contou Antonio Araújo.
O Teatro da Vertigem percorreu esses lugares na época da pesquisa, base para o trabalho colaborativo do grupo. Do DF, levou ainda a estética da seita Vale do Amanhecer e da sua líder espiritual, Tia Neiva (no espetáculo, Tia Selma). Já houve uma tentativa de levar o espetáculo para o Lago Paranoá, sonho que ainda é acalentado pela companhia, patrocinada pela Petrobras.
Na Baía de Guanabara, a montagem cruza 13 pontos. Algumas cenas ocorrem às margens, em terra firme, dialogando com a estrutura do cais, mas com intervenção de objetos de cena (as garrafas pet são transformadas em cortinas ou cadáveres, por exemplo). Outras, nos barcos paralelos à balsa de passageiros ou ainda em pequenas estações flutuantes. Central, a região escolhida para navegação envolve um dos locais em que o rei D. João VI gostava de se banhar.
A interação com o meio ambiente e a cidade é dramatúrgica. No casco de navios, por exemplo, são projetadas as luzes. A narrativa termina na Ilha do Fundão, em sobrado histórico, transformado em terreiro de uma seita. Antes do fim, um funk messiânico mexe com o público. Há quem dance. Tatiana é uma delas. BR-3 fica em cartaz no Rio até o dia 28. Ainda há ingressos.
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