24/12/2007
Entrevista de Zé Celso para o Jornal O Dia 10/01/1988
Por Eliane Azevedo
Quando o diretor teatral Luiz Antônio Martinez Corrêa foi encontrado morto em seu apartamento, na véspera de Natal, com 80 facadas, o também diretor teatral José Celso Martinez Correa, 50 anos, começou a imaginar a maior peça de sua carreira: todos os artistas unidos para, com sua arte, provocarem mudanças na sociedade, mexerem nas feridas, derrubarem preconceitos- e acabarem com a violência, o desprazer, a escuridão. No palco da vida, tudo seria luz.
O enredo não é novo – desde Abrahão, passando por Jesus e Buda, tentam montar esta grande peça. Mas o polêmico José Celso (à frente do Teatro Oficina, de São Paulo, ele foi um ativo militante dos teatros populares da década de 60, mas também aceitou a ajuda financeira de Paulo Maluf para manter seu teatro) aposta toda a sua paixão neste projeto.
Afinal, não se trata apenas do irmão morto. Foi mais um numa série de crimes contra artistas homossexuais, que vêm acontecendo no Rio e em São Paulo há mais 6 meses. E, desta vez pegaram um gênio da raça, um diretor em plena efervecência. Luiz, luz, clama Zé Celso, que anuncia nesta entrevista a O Dia uma série de planos para não deixar a chama de Luiz Antônio morrer.
Por que seu irmão Luiz Antônio foi morto?
Zé Celso: Você fez a pergunta que minha mãe e eu fazemos: por quê? O objetivo de todos nós está no próprio nome do Luiz, do jeito que vocês cariocas falam: luz. Há que jogar luz em cima disso. Queremos uma interferência do Estado, para que haja uma investigação policial e que esta área policial seja iluminada pela área cultural. Vamos saber por que, chamando padres, pais-de-santo, mães-de-santo, gurus, psicólogos, médicos, sexólogos, de qualquer crença e sabedoria. O cara matou por que é louco? Vamos saber que loucura é essa. Ah, não é um crime sexual. Era michê? Era drogado? Mas milhares de michês e drogados não fazem isso. Por quê? Ainda mais quando isso acontece com um artista que trabalha exatamente com essa matéria.
Como assim?
Zé Celso: O Hamilton (Vaz Pereira), do Asdrúbal Trouxe o Trombone, me abraçou chorando na assembléia dos artistas (na última quinta-feira) e disse: ‘Se fosse comigo, eu teria ficado possesso. Eu era igual a ele: trabalhava com pessoas, juntava pessoas’. Uma das características do trabalho do Luiz era o culto à vida. Aí vem um exterminador do futuro acabar com o trabalho de quem fazia por onde dar valor à vida.
Este tipo de crime vem acontecendo já há algum tempo, em São Paulo e no Rio. Por que foi preciso o Luiz Antônio morrer para que esta mobilização surgisse, especialmente na classe artística, que vem sendo atingida?
Zé Celso:Era uma artista em seu auge e uma pessoa adorada. Luiz era um santo: viveu 37 anos para a arte do teatro. O fato de isto cair em cima dele mexeu com a a emoção das pessoas. Eu peguei a minha emoção para produzir vida. A morte dele foi tão absurda que tem que se transformar numa coisa fértil.
A própria função do teatro é trabalhar com o bode expiatório. A sociedade precisa de mudanças- mas como as pessoas têm muito medo de mudar, criam pretextos, bodes expiatórios. O bode é o marginal, o maconheiro, o homossexual, o pivete. O teatro trabalha assumindo o lado do bode: na Grécia, ator trágico significava: ‘o bode que canta’. O teatro desfaz o jogo que determina o bode expiatório. Na religião, você cultua o bode, o Cristo, para que ele pague o pecado dos outros. No teatro, é exatamente o contrário: você assume o bode para acabar com a necessidade da existência dele. Joga de volta para a sociedade o que ela joga em cima do bode.
No teatro da morte de Luiz Antônio, você não acha que existem dois personagens que são bodes expiatórios: o Luiz Antônio e o assassino?
Zé Celso:Num certo sentido, sim. É como na peça que estou montando, As Bacantes, de Eurípedes: de um lado Dionísio, o deus da alegria. Do outro, Penteu, que significa caixão, morte. O teatro trabalha em cima destas cenas para que não aconteçam mais. Porque esta cena é produzida pelos preconceitos criados nestes momentos em que não se pode mudar, como agora. Este corpo deste menino (Gláucio, apontado como o assassino) é cavalo de toda essa carga de violência: ele assume o bode do lado direito, o bode exterminador do futuro. Esta cena é exemplar: por que uma pessoa dá 80 facadas em outra? O que está projetado nesse rapaz, o que ele tem socialmente no corpo? Ele é símbolo de todas as outras violências. Inclusive o assassinato cultural, porque você não mata apenas a vida da pessoa, mas a possibilidade de ela produzir algo melhor para a sociedade.
Temos a cena final, dos dois personagens, o palco, que foi a casa do Luiz Antônio. Falta o enredo. O que levou os dois a se encontrarem?
Zé Celso:Eu quase diria que gostaria de trocar a punição do cara pela história, pelo ‘diga o que foi’. Há mais um personagem, que não se sabe quem é. E, pelas coisas que aconteceram, parece que é um tipo de organização que trabalha com um mínimo de duas pessoas. Não houve tempo de acontecer uma cena emocional para que houvesse 80 facadas. É algo planejado, é um ritual. É uma seita, que existe por que há uma pressão social pedindo que ela exista.
O que levou os bodes expiatórios que assumiram o papel de exterminadores do futuro a procurarem outros bodes expiatórios?
Zé Celso:É a morte querendo eliminar a vida. E aconteceu na minha família: nós nunca demos certo mercadologicamente, mas nunca tivemos preconceitos, nunca escondemos coisas como o homossexualismo.
Estou tendo um prazer enorme de dar uma entrevista a um jornal como O Dia., por que passei a ficar solidário com as pessoas que lêem o noticiário policial. Elas já estão na área da tragédia. Estive numa casa na semana passada em que a empregada tinha perdido o irmão e a cunhada, sustentava três filhos, e passava o dia ouvindo noticiário policial. Eu me identifiquei com ela.
Por que a opção de extermínio está em cima da coisa sexual?
Zé Celso:Tudo o que significa mudar de marca, pular a cerca, sair do limite, dá muito medo. O fato de um homem amar outro homem, a mulher amar outra mulher, desorganiza a sociedade. Imagine uma Guerra, com os homens de um lado sentindo tesão pelos homens do outro lado…Pra começar, acho que não existe homosexual, existe prática homosexual. A sociedade fabrica o modelito gay, modelito sapatão, e os otários embarcam. Quando uma coisa que foi considerada um horror, colocada no subterrâneo, vem à tona, as pessoas acham que o males todos vêm de lá. É o bode principal, como os judeus já foram numa época, os comunistas em outra época.
A existência do michê, da mercantilização do amor, não pode ser outra pista? No lugar do Luiz Antônio, não podia estar uma mulher vítima de um garoto de programa?
Zé Celso:Para os michês, é péssimo que haja isso, eles perdem clientes. Primeiro, ninguém sabe se o assassino era michê. Depois, mesmo assim, o michê pode ser mais honesto do que outras relações. Dificilmente, numa relação homosexual, não existir atração e prazer, por que tem haver ereção. A troca por dinheiro pode ser mais honesta do que a troca por dinheiro pode ser mais honesta do que a troca por outras coisas, que sempre existem nas relações. Eu já usei michês algumas vezes, mais para ter oportunidade de atravessar a zona de perigo, sair do apartheid. Na Grécia antiga, as pessoas que eram pagas, viviam disso, se enfeitavam para isso, procuravam ser carinhosas para isso, eram divinizadas.
É uma coisa cultural, por isso tem que haver uma mudança na cultura. A burrice, o lado curupira, o lado estreito, determinam essa violência. Fascismo não é só cara que vai lá e mata, é também quem não quer saber de nada, não quer se envolver em nada. Todo o desejo violento destes é projetado em outras pessoas. A violência maior é a de não querer mudar, de fechar a cabeça nestes tabus. Por isso os crimes têm acontecido com homossexuais artistas: o artista mexe com a vida, dissemina essa insatisfação com a vida levada com gosto de morte.
O que você espera que aconteça com o assassino de seu irmão?
Zé Celso:Eu quero saber por que. Para mim, a punição para ele seria fazer o cara experimentar tudo o que a vida apresentar tudo o que a vida apresenta, ser obrigado a viver tudo o que ele tem medo, tem horror. Uma pena de vida. Eu queria saber o que tem nesta entidade, por que o cara é uma entidade oposta à vida. Esta entidade, não o rapaz, tem que ser destruída, deixar de existir. Temos que virar os valores do avesso, porque os valores que dominam é que permitem estes assassinatos. A sociedade tem que jogar luz em cima, saber o que é, para acabar com isto.
A cultura é culto à vida. Queria que no Rio acontecesse um festival de teatro contra a violência- afinal, aqui no Rio, por causa das TVs, vive a maioria dos artistas. De certa forma, em seu trabalho na TV, eles acabam sendo cúmplices de todo preconceito para com as coisas não mudem. Mas estas pessoas têm uma energia enorme, se puserem seus corpos para trabalharem pela mudança. Se você faz um festival de teatro, mas voltado para a população, para a gente que lê O Dia…Trabalhar contra a violência junto com os padres, os terreiros, com quem queria a paz. E a Polícia também, junto, dando segurança mas querendo mudar. Um festival transmitido ao vivo, pela TV, com os artistas trabalhando pela paz.
Foi essa a discussão da assembléias dos artistas, na última quinta-feira?
Zé Celso:Sim. O Moreira Franco quis acabar com a violência em 6 meses. Eu disse para ele que durante 6 meses desse poder de Estado à área da cultura para trabalhar junto com a Polícia. Para transformar uma ditadura numa democracia, é preciso um trabalho cultural, peças, shows, rezas, junto com a população. Os atores têm que exigir da TV uma mobilização, por que ele têm poder- os atores têm mais poder do que o Vaticano. É preciso uma militância dos artistas, ir à rua, não para comícios, mas para trabalhar, fazer teatro. Era isso que se fazia na década de 60, e os artistas perderam para uma coisa descartável, boba, que contribui para o preconceito.
Mas pode ser que a população não queria ficar do lado dos artistas. Por exemplo, o povo pode achar que homossexual tem mais é que morrer.
Zé Celso:Há uma parte que diz isso. A imprensa- O DIA publicou as melhores reportagens- fez uma leitura muito preconceituosa da morte do Luiz Antônio. Mas a população sabe ler além desses clichês. O trabalho do bode tem que ser feito onde há o preconceito. O preconceito foi vencido por esta usina de amor que era o Luiz. Quem tem que fazer este trabalho, senão as pessoas que lidam com valores, na música, nas roupas, no teatro, na postura?
Você tem percebido uma receptividade da classe artística no Rio para este tipo de pensamento?
Zé Celso:Tenho percebido um combate. Tem uma parte apavorada, apesar e fascinada por isso. Mas o teatro não pode ser uma coisa da casa da tia. Tem que ser como o futebol, a macumba, o samba, uma coisa para todo mundo. Assim, a arte fica mais perto do drama da vida, da comédia da vida, da paixão da vida.
Por que foi preciso morrer um membro da elite dos artistas – não apenas mais um travesti da Boca do Lixo – para que houvesse mobilização? Qual o potencial da classe artística e da população e de se mobilizarem agora?
Zé Celso:O Luiz é só um símbolo para nós. O teatro tem que assumir todos os bodes, é a função social do teatro! Aconteceu de o Luiz ser um artista de teatro, e no teatro se faz este tipo de escândalo, é da profissição isso. Não tem nada de marketing por trás. Mas eu tenho pedido sempre que se relacione o Luiz com os casos de São Paulo. Isso devia ser levado à Brasília, ao Ministro da Justiça, à Anistia Internacional. O que aconteceu com o Luiz polariza todo o tipo de violência. Estranho que o Governo, o Ministério da Cultura e o Ministério da Justiça não tenham até agora se manifestado- desde São Paulo os artistas têm alertado para esta série de crimes iguais. Eu me sinto ameaçado pelos exterminadores do futuro.
Quais são as propostas concretas para este movimento dos artistas?
Zé Celso:Concretamente, vamos começar com pequenas coisas. A peça que ia montar, Lulu, do alemão Windekind- a história de uma prostituta assassinada por um maníaco, um símbolo da Alemanha nazista que matou a Alemanha livre dos anos 20- vai para o Teatro Rival, bem no centro da Cidade. Luiz, luz da cidade, num teatro que é rejeitado , as pessoas não gostam de ir para o Centro, é sujo…No dia 20, estréia a peça que ele montou com seus alunos da Uni-Rio: Rito do Vale, do teatro nô, japonês. É a história de um menino sacrificado durante uma viagem por monges que, inconformados, decidem ressuscitá-lo através de uma ponte de pedra. Eu queria que este espetáculo fosse transmitido ao vivo, direto, por uma cadeia de TV. É o trabalho mais perfeito do Luiz, e meio premonitório. Deviam ir todas as pessoas interessadas em liderar esse movimento, esse trabalho de luz.
Depois, vamos tirar as coisas do Luiz de seu apartamento e preparar um material para exposição e acervo, ou melhor, para um viveiro. Vamos achar um lugar para sede desse movimento e lá instalar o material, os projetos do Luiz. E propor um teatro social, para o Rio inteiro, o mundo inteiro, a partir da última cena do Luiz, o assassinato. Ao lado dessa exposição, achar um lugar maior para leitura e encenação dos trabalhos já feitos, desde a época de Araraquara, em São Paulo, e grupo Pão e Circo, até os projetos, como o que ele fez sobre o João do Rio, contos de fadas, A partir daí, se organizaria o festival de teatro: Luiz na Violência. A arte pode ser mais poderosa que a morte, mais transformadora que a política, mais alimentadora que a economia da Guerra. A morte do Luiz pode fazer renascer o teatro brasileiro- e se o teatro brasileiro renasce, renasce a revolução brasileira.
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