27/11/2007
Situação no Estádio Municipal de Canudos. Os canudos estão trançados para manter de pé a caixa de teatro total dos Sertões. Ainda sem gerador, os trabalhadores mal alumiados erguem as varas de refletores e preparam as saídas dos equipamentos de som de seus cases. Chove forte. A água bate na lateral ainda aberta do teatro e molha o piso. Qualquer chuva aqui é chuva, e todos dão graças a Deus que ela caia, e a Ele rogam que caiam mais e mais fartas até o ano que vem. O gerador de energia chega hoje. Os equipamentos de video poderão ser instalados então, e o teste para a transmissão realizado. A rouparia, a área da contra-regragem e os camarins estão prontos. Os banheiros químicos, para público e elenco estão no estádio, mas não em posição definida. Rola o boato da vinda de Ivete Sangalo para cantar. É só boato, muitos tiveram de repetir até para garçonetes de Uaua, há cinquenta kilômetros daqui. ÉduARdo Suplicy que Canudos precisa, leu Alberto Artes que embeleza com pedras e informações a entrada da cidade. Canudos está engatinhando agora, ele disse. Há quatro anos não tinha orelhão que funcionasse, internet não havia, nem mototaxi com 0800, ou acarajé na praça.

Colocação da antena de recepção do sinal do estádio para a distribuição na internet.
Anteontem as filmagens na Serra do Cambaio. O exército teve de atravessar essa garganta para alcançar Canudos, e caiu inteiro sob os tiros dos jagunços entricheirados nas montanhas da serra. Atravessamos a caatinga, o exército levando a metralhadora Campo do Norte, laboratórios de cansaço. Os jagunços subiram antes o Cambaio, descansaram sob a árvore sagrada do sertão, o umbuzeiro. Os frutos verdes, ainda nem inchados, com a polpa estreita logo envolta do caroço, deram às bocas a provocação da saliva. É uma forma de matar a sede. Outra é cavar até encontrar os tubérculos cheios dágua das raízes. O poeta nosso guia: na sede cava-se até com as mãos. E Lagoa do Cipó, Lagoa do Sangue desde que soldados e jagunços encontraram-se em batalha desigual que resultou na chacina de duzentos sertanejos e morte de quatro militares. É hoje uma capoeira, de terra vermelha, ladeada por um obelisco em formato clásssico revestido de pedra que leva placa com nomes euclidianos e canudenses ilustres. Almoço no açude, na Canudos Velha, com seu Gobinha do Pífano. Feridos comeram Tucunaré do açude, o peixe é bom, o preparo não foi dos melhores. A noite a rua central fervilha, garotos e garotas na flor da idade caminham sem parar de um a outro lado. As casas de videogame cobram um real para se jogar 45 minutos. Um real compra muitas coisas em Canudos, uma lata de refrigerante, uma hora de internet. Em São Paulo é a gorjeta.
A comunicação. A internet está disputada. Há favelas no Rio de Janeiro com 300 lanhouses. Canudos tem quatro ou cinco, bem disputadas. E hea pontos nas casas. Os moradores pagam oitenta reais mensais por uma conexão de 56 k. A Telemar cobra 5800 reais mensais pelo ponto de 1 giga que é loteado entre aproximadamente 50 usuários no caso exatamente do ponto que vamos utilizar para a transmissão. Chegou o resto do Bexigão, o que significa lanhouses lotadas daqui pra frente, conectadas diretamente com o Bexiga.

‘Favelas, anônimas ainda na ciência, ignorada dos sábios, conhecida demais dos tabaréus.’
Uaua. Em Uaua a primeira expedição, na realidade batalha sangrenta, travou-se entre os comandados do tenente Pires Ferreira e uma pequena multidão jagunça, misturada a mulheres, entoando cantos guerreiros e carregando a bandeira do divino, que tirou da cama os soldados depertando-os para a luta. A marca profunda causada pelo espanto da soldadesca diante de uma civilização desconhecida deu até o fim da guerra o valor do misticismo, ou como chama o MST, da mística do ímpeto guerreiro. Hoje ninguém sabe da batalha. Ficamos na promessa de encontrar Leno, menino novo interessado pelas coisas de Canudos, Todos na cidade sabem que ele é o cabeça. Não apareceu. Seus pais são padeiros em Uaua, assam dois mil pãezinhos por dia em forno caseiro no fundo do quintal. O irmão mais novo fotografa nossa visita em uma snapshot descarregada, com a porta do filme aberta. Oferecem assento na mesa ou no sofá de dez em dez minutos. Em ferente à casa começa a feira. Barracas de artigos de couro, sinetas de gado, pintos coloridos, galinhas criadas nos quintais presas pelos pés em toda barraca, roupas em estampas inconfundíveis do sertão. Sapatos industrializados e botas rústicas para agricultura, carne de bode. Uaua é a capital do bode. Aproximadamente dez mil cabeças deixam a cidade em caminhões todo mês. Os moradores mesmo não sabem de onde sai tanto bode. Sai pra São Paulo e Rio de Janeiro também. Devedês pirata, muitos filmes de ação e coletâneas de Bruce Lee. Tropa de Elite não chegou por aqui. Os poucos que arriscaram informações sobre a batalha que se deu na praça central onde hoje branqueia uma estátua de Conselheiro com cajado de PVC, deram informações trocadas, lugares errados, ou não sabiam de nada e se ofenderam com a possibilidade de term sido considerados velhos. Na praça da bandeira Maria Ivany carregava algumas A4 grampeadas. Na capa História de Uauá. Não foi ela quem escreveu, foi uma moça da computação quem fez o trabalho de escola para ela por sete reais. Na segunda página um resumo bem feito da batalha.
Agora estamos todos aqui. Amanhã começa o fim e o desmassacre. Pela irrigação por gotejamento de Canudos.
Tommy Pietra, 27 de novembro, 23:45
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