15/12/2007

ESTRÉIA E TEMPORADA
Os Sertões, a ópera de carnaval completa, em cinco partes, faz efeito em sua totalidade. Em Canudos A Terra foi chocou-se com o céu. O público, ainda predominante de canudenses, reagiu envergonhado à nudez e ao sexo em sussurros incontidos que duraram toda o espetáculo. Não havia esperar ouvidos, mentes e corações que se abrissem para o espetáculo de mostrar aquela terra, aquele ponto, na reinterpretação do Oficina. A surdez geral ecoou nos atores, alguns simplesmente se perderam e fizeram-se surdos também impedindo um bom caminho para a peça tocar o público, mas as cenas corais, de música e dança, devem ter sido o início de um contato depois do ‘chacoalhão’ como chamaram alguns do público depois da peça. Quando aberto o pedido às estrelas, e os canudenses puderam se manifestar pronunciando os desejos, alguns pediram celular, porque ‘Canudos é o último lugar da Terra a não ter celular’, outros internet. O diretor do Oficina pediu que o público se desse, se livrasse da vergonha e timidez e se entregasse ao Oficina que com carinho transmudaria os sentimentos deles. Na volta para casa o mototaxi vibrava juvenil com a morte do operário que caiu de cabeça na cacimba. A não transmissão pela internet foi uma das derrotas dessa estréia. A vitória foi estrear. Confusão técnica geral, no corte das câmeras para a internet, no som, na luz (apagão do gerador), na falta de ensaio vai na preparação afobada, e ainda assim é sempre um milagre, tudo só o início. O Homem I ainda envergonhava um pouco, poeira mais asssentada permitia a visualização mais atenta das cenas, e nas mestiçagens iniciais dos povos, a nudez tornou-se óbvia ululante, Índios brasileiros nus, mongóis no fim da travessia da ponte alêutica tiram suas peles no trópico das cabras. O vaqueiro, era reciso ter perguntado a um vaqueiro sobre essas cenas. Ao fim do primeiro ato, no ócio cio, muitos deixaram as arquibancadas e se deixaram levar misturados no cio, esparramados pela pista. O segundo ato, iniciado com a festa sertaneja, teve o público misturado para o baile com o desafio de Zé da Hora e Ceará que foi ficando triste e sombrio até o canto do prenúncio da seriema. A luta do sertanejo contra a seca como é lembrada por Vivian no video, já é do cotidiano do sertanejo. O monólogo final de Conselheiro, sobre a mutualidade de influxos na criação dele e de seu meio, feita o máximo no aqui e agora da komunicação de influxos mútuos do ator e do público não teve a escuta necessária. Mariana Ximenez, misturada ao povo na arquibancada, saiu antes do início dessa cena e levou com ela seus seguidores.
A transmissão pela internet aconteceu, praticamente sem interrupções, mas com pouca audiência. A divulgação tinha fracasssado, mesmo nas tentativas desesperadas das últimas horas. Assims seria até o fim, até As Lutas, que também foram transmitidas na íntegra e com boa qualidade. No Homem II, o público, mais misturado das pessoas que afluíram de vários pontos do país, Brasília, Rio Grande do Sul, Ceará, Rio de Janeiro, silenciaram no primeiro silencioso ato, a gênese de Antônio Maciel na ação da Luta de Famílias, assunto conhecido na pele também. O segundo ato, te-ato de Canudos. Agora pra se cantar a criação de Belo Monte, o gérmen daquela terra e daquele povo que seria depois massacrado e teimosamente vivo estava presente no teatro. A energia materializou-se no contato do povo com as cenas-rito de Canudos, as cheganças, a renovação do grupo na nova terra, o trabalho para construir a cidade. Mariana Ximenez, alojada na cabine técnica, atenta acompanhando essa revolução visível a olhos nus da presença teatral, na ação de transmutacão dos corpos que tirou praticamente todos da arquibancada. Foram se assim deixando tomar, até a cena de Eva no paraíso so amor livre de Canudos, em que alguns canudenses e muitos forasteiros ficaram nus. O impacto orgiástico, jea com parte do ppúblico no meio da cena, seguiu no Beija, no prenúncio do massacre `a cidadela e na recolha dos papéis escritos em meio às ruinas. Foi o pico da atenção até aquele ponto. ‘Possuídos’ foi o termo usado por Rômulo, canudense descendente de combatentes mortos na guerra, quando retornou à sua casa, pousada de alguns de nós. Disse-se também admirado com a possessão do público do teatro. A transmissão pela internet do Homem II foi de mal a pior, muita segurança do dia anterior, falta de preparo para o imprevisto e o segundo ato inteiro não se transmitiu. Era o paradoxo, o rito materializado a ponto de se ter a clara sensação de que estava acontecendo no cosmos, reverberando com destino ao infinito, e eternamente, mas sem a transmissão pelo o único canal lógico, científico, provável de transmissão. Euclides compreenderia a antítese e teve a hora inexorável de jogar pros ares o misérrimo arsenal científico com que ali lidávamos, incapaz de jogar pros ares o sinal. Para A Luta I foi relocada a antena da transmissão, contatada a Telemar para resolver um problema aparentemente dela, e a transmissão correu perfeita, com público baixo, de quatrocentas pessoas no pico da audiência. O pensamento reconfortante foi ‘mais um Oficina cheio’ pelo mundo? Tão bom quanto no Homem I, nas palavras quentes cheias de fé do camarada Luis, que filmou com a gente, ‘uma salinha de cinema cheia’. O espetáculo foi caótico, cansou parte do público que deixou o teatro antes do fim. As filas para comprar ingresso tinham se formado desde muito cedo, sete da manhã. Muitas pessoas que assistiram a peça tinham estado por horas na fila embaixo do sol. A quantidade máxima de dois ingressos por pessoa não tinha sido suficiente para evitar o câmbio negro nos dias anteriores que atingira a extraordinária taxa de 1500%, com ingressos vendidos a 15 reais. No intervalo falaram Suplicy e o prefeito de Canudos Adailton Gama. Para a Luta II seria permitida a compra de apenas um ingresso por pessoa. A fila começou bem cedo mesmo assim, e era possível avistá-la a kilômetros de distância, formada na porta do estádio. Foram distribuídas senhas e o processo para conseguir os ingressos tornou-se um pouco mais humano. O ingresso alcançou um valor inestimável. Andar com um no bolso causava sentimento ao mesmo tempo de poder e perigo. Por toda a cidade perguntavam se ainda havia ingresso, como conseguí-los. Fenômeno que permitiria ter feito a temporada para o dobro de pessoas se toda a estrutura fosse outra o que despenderia produção muito maior, com tempo para ensaios, etc. No intervalo da Luta II Zé Celso falou. Era dia 02 de dezembro, 105 anos da obra de Euclydes. Zé pediu que os canudenses abrissem uma roda de estudo do livro criando uma semente em Canudos para a Universidade Popular Orgiástica e passou o micorofone ao público. Alguém cujo nome não soube, mas está em video também nessa página, clamou o povo canudense a proteger o Oficina da especulação financeirista do Grupo Silvio Santos e ao final gritava viva São Paulo! A mutualidade de influxos estabelecida. Muitos ficaram até o fim, olhares fixos reexistentes para presenciar o massacre final e a seresta do ser-tão.
PLUGAÇÃO
O milagre da transmissão pela internet a partir de Canudos é de fácil explicação. Canudos tem tantas lanhouses quanto farmácias mas o link é apenas um, de um gigabyte, de propriedade de uma pessoa, o simpático Robson, de Euclides da Cunha, que com sua equipe de técnicos trabalha em uma pequena sala anexa à maior das lanhouses e sobre o Banco do Brasil. A prefeitura e o BB têm links próprios. Robson divide o seu link para diferentes lanhouses. Ao final cada computador trabalha com uma taxa de transmissão de dados de aproximadamente 20 kilobytes por segundo. Ele paga cinco mil reais por mês à Telemar pelo link. A hora nas lanhouses custa um real. Numa conta rápida vê-se que o lucro é pequeno. O que fizemos foi pagar a ele para que instalasse o sistema de transmissão por antena do teatro a sua central e jogasse o sinal na net. Para dar certo ele teve de dedicar 70% do link à nossa transmissão o que fez com que a internet já precária da cidade ficasse ainda mais lenta nos horários dos espetáculos. Edwilson Menezes foi o incansável técnico que trabalhou ao nosso lado para em tempo mínimo fazer acontecer o feito. Erros de um e de outro lado causaram a não transmissão da Terra e de parte do Homem II. Hardware é o que vc pode chutar, software é o que vc só pode xingar, foi a definição de Ed para a situação. O fato é que está cada vez mais fácil e barato realizar esse tipo de transmissão e a idiosincrasia de não haver mais links, com maior capacidade, mesmo que fossem de propriedade pública, não faz mais sentido. Transmitir fotos para os jornais por exemplo foi um trabalho árduo, a internet estava muito baiana no sertão. Após a instalação concluída no teatro passamos a ter a conexão mais rápida que a região conheceu, mas isso tudo é um paradoxo e vê-se que o governo continua comentendo os mesmos erros de séculos atrás ao tratar dos rincões isolados do Brasil. Canudos deveria encabeçar uma lista de sítios a serem plugados no Brasil. O interesse do povo já está evidente mas o verdadeiro uso não vai avançar nessas condições de comunicação. Nossa idéia, depois da primeira visita técnica a Canudos e da constatação que a internet não funcionaria, era levar para a cidade, em parceria com o governo, um link e lá deixar, para criar uma linha de operações, como diz o termo militar. Euclides da Cunha teve, em determinado momento da campanha, a clara percepção que ao invés de armas de destruição o que deveria ser levado a Canudos eram instrumentos de educação e cultura. A situação permanece a mesma, Canudos precisa dessa campanha de paz e cultura.
TECHNOXORRÓ
Depois do milagre santo de um prato de sopa de feijão de Delice com o pão maci(ç)o de Canudos o céu azulava na praça central às 4 e 30 depois do Homem II, Antes da Luta I. A caminhada, mesmo para os alojados no limite da cidade, é muito curta até aquele ponto. Mas não deve-se seguir a direção do som, naquele momento notas estrídulas de uma flauta reverberando ‘nas trincheiras da alegria o que explodia era o amor’. A medida que se dobram as esquinas o som parece variar seu ponto de origem, a Canudos nova guarda para o som aquilo que na primeira cidade determinou sucessivas derrotas das expedições que a penetraram, confunde nas vielas, desorienta. Quem dormiu naquela noite ao som da rabeca hendrixada duadriano, alcançano cada casebre? Adentrada a pista a céu aberto de ladrilhos quadriculados, todos os cansaços e derrotas se deixam embalar pelo som que se enreda ao céu do chão. A visão das mãos precisas de bandowilson ou as de Lagarpando em flamas, são estímulo a mais para manter-se acordado. O que está acontecendo é cósmico e precisa do despertar sem prejuízo do próximo despertar.
Uma ou duas danças depois Carlos, de 24 anos, olhos claros, injetados, penetrantes e sempre nos olhos, vem dizer em frases entrecortadas que pareceram submergidas dos substratos mais profundos de sua mente, a plenos pulmões para vencer o volume sonoro do chorró techno. O trabalho que vocês estão fazendo aqui é evolutivo, ói, vai ser uma evolução para Canudos, vai fortalecer o que tem, assim, de pessoas interessadas na história de Canudos. A verdade está, muitas vezes, é só no raciocínio. Na lógica. Aí você falou bonito. Lógica. Logicamente.
Para ele Os Sertões são uma semente flutuante, contagiante para Canudos. Isso ele disse pra aplacar a preocupação evidente dos corações com o dia seguinte à nossa partida, com a vida seguinte. Disse que a vida toda o ponto de encontro com os amigos, e eles estavam lá, confirmando veementes a informação, é o ‘muro de pedra’, há quatorze quilômetros dali, uma trincheira lajeada de pedra, com mais de três metros. profundidade pro inimigo, altura pro tocaia. Quando ouviu o diretor no final da Terra clamar ‘vamos quebrar o muro da vergonha’, foi. Disse para os amigos, vamos quebrar esse muro.
Teatro, quem sabe o que é teatro em Canudos? E em São Paulo, no Oficina? Esse é um ponto, não se sabe se é teatro o que é feito no Oficina e em Canudos não se sabe o que é teatro. Aqui não tem um grupo? Tem um de Euclides da Cunha mas é raro, faz coisa pouca, nada, um nada, e fechado no clube social. Pinga, Teatro pinga aqui.
O jorro dos Sertões é como o açude, não basta, é preciso a irrigacão por gotejamento. ‘Canudos é o último lugar da Terra.’ Então o mesmo ponto terminal, da onde resta apenas descampar para os céus? Canudos é um lugar de passagem, desde a Fazenda Velha. É um ponto riscado pelo cruzamento das estradas mais importantes do sertão brasileiro. Bem, sim, Bedengó, Jeremoabo, Cumbe. Bedengó da Pedra. A vaca sentada na silhueta do céu. Escura, pe pêlo pesado e lustroso sobre o couro, imóvel. Ao aproximar-se o espanto. A pedra de metal desconhecido. A vaca vira pedra. É essa pedra que tá lá no… No museu de história natural do Rio de Janeiro. A mesma avó alardeava os meninos que íam catar umbu maduro com a ameaça do Berrador, tronco atarracado que ataca os destraídos de olhares atentos no chão. Graças ao cagaço do Berrador e seu berro afônico muita criança evitou caganeira. Quando secou o açude a avó encontrou uma bala de canhão. Trocou por 120 kilos de açúcar. Para ele um mal negócio. Uma bala por duas sacas. Não sabia o que estava fazendo. Por fim está abismado que a Matadeira repouse eternamente sobre as terras de Monte Santo, base militar das expedições contra Canudos. Devia estar na Canudos Velha. Entregue afinal àqueles que a desejaram com o máximo de suas forças e diante dela re-existiram brindando sem saber com o inimigo no meio da guerra, contrapontando seu sino sonoro da Igreja Velha. Carlos se vai.
Aproxima-se uma menina crescida de Quixeramobim, vinda com outras dezoito pessoas em caravana. Conta que para poder vir travou com a mãe A Luta 1, A Luta 2 e A Luta 3, passou pelo pré-homem, pós-homem, transhomem e pan-homem. Mora sozinha mas a mãe se dá o direito do controle sobre ela porque ela sempre deu muita satisfação. Sai dançada requebrada, feliz da vida.
PESSOAS
No domingo, último dia, apareceu na pousada São Sebastião, o dono dos Banheiros químicos que foram instalados no estádio. De Irecê, a 600 kilômetros de distância, ele tinha vindo durante a madrugada interessado em acompanhar ainda a última apresentação. A primeira notícia que recebeu ao chegar foi a de que o senador Suplicy havia entrado em um dos banheiros para usar e estava quebrado, faltando um dos quatro pés que dão sustentação, e teria saído reclamando. Ele não queria acreditar. Mas não é mesmo crível tal história. Suplicy é ruim de reclamar, ainda mais de banalidades.
Muitos conhecidos em Canudos viveram em São Paulo. Seu Pistola, casado com a Tia Léa, que toca um restaurante aonde muitos se alimentaram naqueles dias, trabalhou por vinte anos nas indústrias Matarazzo e até hoje é grato aos patrões que jamais permitiram que ele pagasse um almoço quando o acompanhavam. Em Canudos seu Pistola aplica as lições da vida capitalista de São Paulo. Toca pequenas criações em terras espalhadas pela região. O filho revende a água que é trazida pelos caminhões-pipa. Mesmo assim, Pistola acredita que sem a construção da barragem e a inundação do açude de Cocorobó, Canudos não teria o pouco que tem. Alemão, o chapeiro mais famoso da praça central, no trailer aonde muitos mataram as saudades dos hamburgueres e mixtos da civilização, aprendeu a arte em São Paulo. Um senhor que ofereceu carona sob um sol escaldante para alguns que caminhavam para o teatro também viveu em São Paulo. Foi sequestrado um dia no trânsito da Avenida Rebouças, na mesma picape que dirige até hoje. Conseguiu ludibriar os bandidos com informações falsas sobre o rastreamento por satélite do veículo. É uma das histórias que conta para explicar porque, assim que pôde, voltou a Canudos e não tem saudade da terra da garoa.
GOTEJAMENTO
É necessário que esse movimento iniciado com essa temporada não cesse. O próprio Oficina deve estabelecer uma rotina de apresentação em Canudos, de todas as peças que monta. Nada poderá demandar mais dificuldade que Os Sertões. E a ligação está consolidada. Mesmo a pequena receita gerada pela temporada vale como pretexto. Foram oitenta e oito pessoas do grupo recebendo diárias de vinte reais por sete dias aproximadamente. A praça de alimentação ofereceu acarajé, pastéis, água de coco, refrigerantes. Pequenas barracas vendiam lembranças da cidade e os mototaxis trabalharam incessantemente. Mas o que conta é a alegria de descobrir, como Euclides descobriu a existência de um povo, a necessidade cultural dessa gente capaz de compreender profundamente um trabalho estético complexo e por muitos considerado difícil. Havia já uma certa ligação do grupo com Canudos, muitos de nós haviam estado por lá, em incursões esparsas, em pequenos grupos, para estudo, mas a recepção da cidade aos Sertões prova que para além de um ideal de cultura, muitas vezes preso dentro da cabeça daqueles que se consideram elites culturais ou políticas do país, a revolução possível, absolutamente em tempo de acontecer, se dá pelo contato direto dos povos, pela troca afetuosa dos conhecimentos.
Tommy Pietra, 15 de dezembro de 2007
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