NANDO RAMOS NA FOLHA DE SãO PAULO


09/10/2008

São Paulo, quinta-feira, 09 de outubro de 2008

Zé Celso articula “surrealidade” brasileira e insegurança mundial

LUIZ FERNANDO RAMOS
CRÍTICO DA FOLHA

O mais novo espetáculo do Teatro Oficina, “Os Bandidos”, não é recomendável para quem está acostumado às facilidades de um teatro inofensivo e brejeiro. Mas, seria uma utopia desejável que uma multidão o assistisse e o compartilhasse como experiência inesquecível. A duração de cinco horas e pouco, mais dois intervalos, propõe uma imersão áudio-táctil e visual que requer entrega. “Os Bandidos” é uma realização extraordinária porque atualiza um texto inaugural do romantismo alemão de uma forma que nenhum europeu teria sido capaz de fazê-lo. A adaptação do dramaturgo e encenador José Celso Martinez Corrêa consegue ser, ao mesmo tempo, fiel e transformadora, servindo-se da trama original a seu favor e de sua poética. A situação dramática opõe dois irmãos na luta pelo amor e herança de um pai morto – vivo, dono de uma corporação televisiva. Operando com a metáfora dos hemisférios planetários – norte e sul -, cerebrais – direito e esquerdo – e míticos – o exu de duas cabeças que traz em si Apolo e Dionísio -, a encenação não só valoriza em cada um dos irmãos suas dialéticas internas, como opõe Zé Celso e Silvio Santos como personagens. Kosmos, o irmão maquiavélico associado ao empresário, aparece em conflito com o irmão Damien, “ex-mocinho e futuro bandido” que durante a saga, já em seu duplo, Damião, se disfarçará de Zé Celso. A estratégia teatral revela a astúcia política do encenador, mas expõe em carne viva seu próprio quixotismo, o “ardor irresistível” de uma idéia fixa.

Adaptação
No prefácio da primeira edição de “Die Raüber” (Os Bandidos), em 1872, Schiller descreveu-a como uma “história dramática”, consciente de seu caráter episódico e da extensão dos acontecimentos, própria ao romance. Marco do movimento “Sturm und Drang” (tempestade e ímpeto), era natural que o seu modelo não fosse a tragédia francesa, com ações concentradas em poucos dias, mas a elisabetana, de Shakespeare e seus dramas históricos, cujas tramas se expandem em anos e têm caráter tragicômico. Zé Celso compreendeu a natureza do texto e o adaptou na perspectiva da telenovela brasileira, na qual registros do melodrama e do cômico se equilibram. O caráter de narrativa que se esparrama em episódios, permite-lhe encampar temas da história do Oficina e passeios por outras peças de Shakespeare e de Schiller. Essas fugas exasperam o público, mas permitem que a forma espetacular se aproprie criticamente dos procedimentos da telenovela. Há destaques inevitáveis. A pista do teatro virou tela, carpete branco a refletir em toda sua amplitude as projeções da densa trilha visual de Elaine César. Com a utilização sem precedentes de imagens projetadas, Zé Celso serve-se de técnicas cinematográficas e televisivas – close-up, planos seqüências – para construir a narrativa. A banda “Strume und Mangue”, com direção musical de Guilherme Calzavara e Otávio Ortega, pontua minuciosa todas as cenas, criando uma música de cinema. A direção de arte de Cris Cortílio é primorosa e arma bem o “palco italiano” numa das extremidades da pista. Os figurinos de David Schumaker e Sônia Ushyiama chegam a ser brilhantes no caso das roupas de Ariadne Brazilha e Amália Ariadne. No desempenho dos atores, que se entregam corajosamente à encenação, sobressaem o vilão Kosmos Von Heilig, de Auri Porto, e a heroína Ariadne Brazilha, de Sylvia Prado, ambos realizando seu melhor trabalho no Oficina.

Crise do Estado
Quando Hélio Oiticica, em 1968 cunhou a frase “seja marginal, seja herói”, demarcava-se um flerte da arte brasileira com o banditismo. Quarenta anos depois, misturando diversos canais, Zé Celso contrapõe ao olhar romântico a crise de um Estado que perdeu o controle e se vê a deriva diante das ações do narcotráfico. Do ponto de vista do Bexiga, ele articula a “surrealidade” brasileira e a insegurança mundial. É um discurso bastante pessoal que comporta idiossincrasias e frivolidades. Mas é a voz de um autor, como poucos hoje no mundo, com muito a dizer e com muita imaginação para dizê-lo.


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