ESTAREMOS SEMPRE TODOS EM CADA UM


12/12/2007

Rio, 25 de dezembro de 1987 Aeroporto Santos Dumont

Estávamos Zé Celso e eu, Maria Helena, irmãos de Luis Antônio, no saguão do aeroporto, a espera do corpo de Luís para ser levado para Araraquara, quando alguém chegou pra nós e disse: ‘Podem subir, o avião está pronto. O corpo é grande, o espaço é pequeno’.

Para que espaço? A dor não tem dimensões. Nós, Zé Celso e eu, éramos tristes passageiros, cabíamos em qualquer lugar. Não éramos nada.

Não me lembro como chegamos ao aeroporto. Quando recebi a notícia da morte de Luís, me robotizei em um corpo que, com má vontade, sustentava minhas pernas trêmulas, pernas que andavam e não tinham pra onde ir, olhos que olhavam sem ver, boca que falava sem dizer. E, de repente, estávamos a caminho do aeroporto para acompanharmos a última viagem de Luís.

Numa linguagem visual embaçada via da janela do táxi, contornos de ruas tristes com seus tristes passageiros anônimos que talvez também carregassem dores anônimas.

Ouvia o som das palmas, palmas, palmas; via o caixão saindo do velório no Teatro Laura Alvim. Os moradores ao lado jogavam pétalas de flores, abanavam lenços, dizendo adeus, adeus

Laura Alvim… Estréia do Theatro Musical Brazileiro II. O musical não saia da minha cabeça. Palmas pelo sucesso. Palmas e nunca mais! As gargalhadas da platéia da noite anterior se calaram. A bailarina cor-de-rosa parou de dançar. A música era linda!

‘O sonho azul de minha vida Desfez-se como por encanto… Parece até que foi mentira Parece até que foi quebranto ’’...

E em seguida, vinham os acordes de ‘O Ébrio’

‘Nasci artista! Fui cantor!... ‘Ainda pequeno me levaram para uma escola de canto’

E Luís sai de cena para nunca mais!

Vi sem ver, o corpo mutilado de Luís.

Num relance, vi os olhos tristes de meu pai. Era um homem calado. O verbo estava nos olhos. Olhos adivinhatórios, vaticinadores, proféticos. Pareciam adivinhar que um dia, uma dor definitiva entraria em nossa vida e que quando essa dor chegasse, nem o tempo com seus poderes terapêuticos, com suas generosas promessas reconfortantes, seria capaz de aliviá-la.

E a dor definitiva chegou. Ironicamente.

Chegou em uma noite alegre de Natal.

Chegou sem avisar e nos pegou desprevenidamente felizes. De uma felicidade pouco exigente, a não ser de viver a vida e nada mais.

Viver a vida com nossos sonhos, ilusões, fantasias. Viver a vida com nossos medos, amores e paixões.

Viver intensamente nossas convulsões de choro, de riso, nossos orgasmos.

De repente, enterrar…

Sepultar…

Sepultar é amargura… É ruptura… É nunca mais…

Gritei o grito do sangue.

Chorei o choro atávico do Homem.

Chorei a dor de minha mãe, desarmada para mais um sofrimento definitivo.

Chorei a fé perdida.

Zé Celso e eu, de mãos dadas falávamos, em uma linguagem muda, todas as revoltas e injustiças do mundo. Nossas mãos unidas, suadas, frias, trêmulas diziam tudo o que não se consegue falar, escrever, nem mesmo gritar.

O piloto que nos levou não conhecia a região de Araraquara. São várias cidades parecidas que se confundem em suas imensas extensões de lençóis verdes de cana de açúcar. É uma paisagem levemente ondulada, sem qualquer acidente geográfico mais acentuado que indique sua localização e assim a viagem teve seu tempo dobrado.

O avião furava as nuvens, entrava no céu. Seria a nova morada de Luís?

Ele sempre dizia que o Céu deveria ser um imenso tédio… Sempre da mesma cor… Com seus anjos, arcanjos, querubins, serafins enfim com todo o elenco celeste tocando harpa! Comendo flocos de nuvens?! Não é à toa que os anjos de Oswald de Andrade para vencerem o tédio faziam crochê!

Justo agora que ele descobrira o samba:

‘Samba Ô Ô Samba ÔÔ Samba, meu Brasil moreno Samba, bate teu pandeiro Nesta canção toda de sol e luar Brasil, grande como o céu e o mar!’

Que faria Luís agora? Só mesmo fazendo um grande circo com nossos bruxos palhaços que já se foram!

Quando finalmente o avião pousou em Araraquara, lá estavam todos nos esperando: minha mãe, meus irmãos, tios, primos, amigos.

Abracei minha mãe num abraço mudo. E, naquele abraço apertado, respiração à respiração, senti o abraço das raízes. Eu, a filha mais velha entregando à minha mãe, o corpo do filho mais novo.

Naquele abraço eloqüente, senti a saga da família. Naquele encontro todos os nossos sonhos, ilusões, frustrações, nossas lutas se abraçaram. Era um abraço de gerações… Nas mãos pequenas de minha mãe senti circularem todas as emoções passadas.

Quando deixamos o cemitério já era noite. Quis voltar sozinha, a pé, pisando as velhas calçadas que pisamos juntos. Foi uma tristeza imensa deixá-lo ali… Para sempre!

Entrei em nossa casa. A casa-mãe. Muita gente falando, chorando, mas a casa estava vazia. Fiquei na sala, sem ficar. Pensava só em Luís. Ele certamente já estaria de posse do grande segredo da eternidade! Seria verdade o que ‘sabíamos’ sobre isso? Céu e inferno existiriam realmente? Olhei para os dois imensos quadros dos ‘Sagrados Corações’ pendurados na parede. Eles partilharam tudo em nossa vida e agora porque abandonaram Luís em um momento tão difícil?

De repente, olhei para o presépio armado em um canto. Completamente abalada, vi as figuras crescendo, crescendo e se transformando em nossos mortos. Vi a bisavó Ana, de cabelos prateados até a cintura, já beirando os cem, ‘plantando bananeira’; vó Laureana, de pito na boca, com um olho só, adivinhado na borra do café o ‘bicho’ do dia: ‘Cum certeza vai dá barbuleta’. Meu avô Zé Corrêa feliz, correndo, brincando com os netos, chorando quando ouviu Ana Maria, minha irmã e eu tocar ao piano ‘A Prole do Bebê’, de Villa-Lobos; Vô Celso, nosso poeta da marcenaria e seus móveis incríveis, Vó Vitória de tailleur azul-marinho e jabô branco, segurando o sorriso com medo de ser feliz! Tio Celso sempre generoso, com cara de domingo, Kiko, nosso sorridente revolucionário, nosso ‘Guevara’; Beata, nossa mãe-preta, torrando café, benzendo-se e clamando’cruiz-credo, mas que calor!’ Nossa irmã-anjo Maria José que foi embora antes de Luís nascer, muito antes, era uma estrela que piscava sempre para nós! Meu pai, elegante como Robert Taylor, lendo às escondidas ‘O Homem e o Cavalo’. De Oswald de Andrade.

De repente um grito vindo do quintal:

- ‘Puuuuta que paaariu! Tanto lugar pra cagar, vem cagar em cima da minha pesquisa??

Era Luís brigando com as andorinhas que haviam sujado o texto que ele batia à máquina, embaixo da parreira de uvas…

Todos mais fortes que a morte.

Nessa noite entendi tudo.

Nossas raízes nunca morrerão.

Estaremos sempre todos em cada um!

Maria Helena


NOTÍCIAS RELACIONADAS


23/12/2008 23 de de dezembro, 14:30hs - 21 anos da Ethernidade de Luís Antônio Martinez Corrêa
24/12/2007 Rito dos 20 anos da ethernidade de Luis
24/12/2007 Glasnost para o Teatro Brasileiro
24/12/2007 O artista é a arma da revolução
23/12/2007 Release do Rito de Cypriano e Chan-ta-lan
21/12/2007 Pranto de 20 anos vira canto
20/12/2007 Currículo de Luis Antônio Martinez Corrêa
17/12/2007 A Cultura da Cabeça do Inimigo
17/12/2007 Jejuo também por democracia real
17/12/2007 É hora de Lula entrar em cena
11/12/2007 Theatro Musical Brazileiro
10/12/2007 O Corpo Imortal do Poeta Luís


VÍDEOS RELACIONADOS


Picture_22-crop Luiz Antonio sobre Maiakovski.
Picture_3-crop Felicidade
Picture_4-crop Cocaína
Picture_5-crop Missa de 7º dia.
Picture_6-crop Fernanda Montenegro
Picture_7-crop Caetano
Picture_8-crop Rito de desmartírio.
Opera-crop Luiz Antônio sobre A Ópera Do Malandro
Opera1_2-crop Luiz Antônio sobre A Ópera Do Malandro - 2
1-crop Luís sobre Alta Vigilância, de Jean Genet
2-crop Luís sobre Alta Vigilância, de Jean Genet - 2
3-crop Luís sobre Alta Vigilância, de Jean Genet - 3


Voltar

PANTERA Dá UM TAPA E CANTA O AZUL

Maria_alice-thumb Dois vídeos do Labryncoficina 50

[+]

NOTÍCIAS

23/12/2008 Oficina realiza hoje com Cypriano e Chantalan o Rito de Passagem do 21º aniversário da ethernidade de Luis Antônio Martinez Corrêa
22/12/2008 Marcelo Drummond escreve sobre Cypriano e sobre Luís Antônio
21/12/2008 Em assembléia geral membros da Associação Uzyna Uzona e da sociedade civil discutem formas de abrir a Luta que não é apenas do Oficina

[+]


AGENDA

2008/12/17 Assembléia pelo Anhagabaú da Feliz Cidade e exibição de videodocumentário
2008/12/09 Uzyna do Choro no Bar B
2008/11/09 Festa Gambiarra pela abertura da Temporada Popular dos Bandidos

[+]